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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Crônicas da Terra dos Papagaios - Jovens e Revolucionários


   O ano é de 1922 e faz uma tarde linda de sol, daquelas pra se aproveitar nas praças, nos quadros de um modernista qualquer ou até na praia de Copacabana, para os mais sortudos.     
   
   - Realmente é uma bela tarde pra quem pode aproveitá-la! - Resmunga o Dr. Odranoel, Seu Noel para os íntimos, olhando pra janela e amaldiçoando aqueles que foram abençoados com umas horas a mais, para aproveitá-las na praia, com um violão, porque não?!
   
   Não tiro a razão do Seu Noel, a propósito, passar uma tarde de sábado num consultório do IML não é coisa que se peça, mas, são uns trocados a mais, que vinham muito a calhar naquela época. 
   Pega então os próximos "defuntos" a serem examinados. Suas fichas: Eduardo Gomes e Siqueira Campos. Reconheceu aqueles nomes. São dois daqueles jovens mortos na revolta dos "18 do Forte", uma tristeza. "Pobres rapazes" pensa Noel. "Pobres e revolucionários, a história da humanidade!". Talvez não literalmente pobres, afinal, estudavam na tão aclamada Escola Militar, eram a nata da sociedade, o "crème de la crème". Talvez por isso mesmo se sentiram na obrigação de ir às ruas reivindicar justiça. Justiça, educação e o tudo mais que o povo merece. Arrancá-los à força das mãos dos coronéis. 
  De repente a tarde não importa mais. Nem aquelas crianças que ele vê brincando pela janela que incomodavam tanto. O Odranoel dos velhos tempos era assim também. Jovem e revolucionário, quase um pleonasmo.

   "Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética" 

   As palavras do grande Che ecoavam na sua cabeça. Até ensaiou uma lágrima, mas não era daquilo. E a tarde de tão bonita não merecia uma lágrima. 
   Pois bem, era hora de fazer seu trabalho, dinheiro não dá em árvores!
  Com um certo respeito trouxe os sacos pretos com os corpos pra mesa de examinação, e os abriu. E, incrivelmente, aquele corpo, aquele defunto, se levantou do saco, respirando arduamente. 
   
   O defunto se levantou! Um morto se levantou! Seu Noel correu quase que involuntariamente pra fora da sala. Pra poder procurar alguém, nem que seja só pra contar que um morto ressuscitou. Ressuscitou nada! Eduardo tinha é uma cabeça mais "na frente" que todos aqueles outros jovens. De que adiantaria morrer naquela rua? Talvez até adiantasse se mais alguém tivesse pego em armas. Ele precisava viver, ele e seu amigo Siqueira. Que os chamassem de covardes, não se importavam. Eles precisavam levar a revolução adiante!
   Quase sem conseguir pensar, Eduardo levantou da mesa num salto, procurou o saco do amigo Siqueira, e o abriu. Talvez até comemorassem o sucesso do plano se tivessem tempo. Mas não tinham, e o Seu Noel, no medo, havia chamado a polícia. Depressa abriram a janela, e nus mesmo, saltaram por ela. Pra começar a revolução! Mas, antes, pra achar algumas roupas!
  Quando os policiais chegaram na sala, encontraram dois sacos vazios e a janela aberta. Reportaram imediatamente pro Coronel, ou General, ou Tenente (quem sou eu pra saber dessas coisas?). E começou então a caça aos revoltosos fujões.

   Incrível como na mesma tarde duas senhorinhas conversavam na porta de casa:
   - Josefa, cê ouviu o que aconteceu? 
   - Dos meninos que fugiram?
   - Pois é menina! Que coisa! Dois meninos fugiram da morte e enganaram o EXÉRCITO DO BRASIL (ela realmente enfatizou essas palavras) se deitando no chão e fingindo de morto, você acredita?
   - Ai ai, essas coisas, só no Brasil mesmo!





sexta-feira, 13 de maio de 2011

Crônicas da Terra dos Papagaios - Independência, ou não?


Caros amigos, venho contar-lhes a respeito do fato que reside por trás do grito de "Independência ou Morte", às margens do rio Ipiranga, que vos foi erroneamente informado por tantos anos, afinal, que criança vai querer tomar como verdade o que segue abaixo?
Enfim, acreditem no que quiserem, mas o que aconteceu foi o seguinte...
- Está um dia agradável, não concorda, Domenico? - Disse D.Pedro (assumindo que algum dos seus guardas se chamasse Domenico)
- Sim, Vossa Majestade, um dia realmente agradável - o respondeu
O fato era que nenhum dos guardas estavam satisfeitos, ou felizes, ou realmente achavam que estava um dia agradável; eles estavam apenas cansados, mau-humorados, e decididos a concordar com qualquer asneira que a Vossa Majestade dissesse.

- Mas, quem vem lá?- Disse D. Pedro ao avistar um pequena sombra vindo de cavalo

Pois era um mensageiro, vindo quase desesperadamente, e como se segurasse sua vida em suas mãos, e talvez, se de fato perdesse o que segurava, lhe custasse a mesma.

- Vossa Majestade, venho em nome de José Bonifácio, e trago em minhas mãos dois documentos importantíssimos, e é de suma importância o conhecimento destas informações por Vossa parte! - Balbuciou o mensageiro, quase sem fôlego

Os documentos eram de fato de suma importância. O primeiro vinha num grande, pomposo e , de certa maneira, imponente envelope, e trazia por título "ULTIMATUM", e o segundo era uma carta do seu braço direito, homem de confiança, José Bonifácio.
Assim que recebeu as cartas em suas mãos as abriu o mais rápido que pode, e se apressou em saber qual era o motivo de tanto alarme, já que (achava ele) nada de mais estava acontecendo.

D.Pedro leu a primeira carta. E não entendeu. Então leu de novo, e de novo, mas não entendia qual era o motivo de tanto alarme, afinal, não se lembrava de ter assinado qualquer documento comunicando qualquer tipo de independência, como acusava aquela carta. Enfim, seguiu para a próxima carta, que, por ser de seu amigo, seria mais fácil de entender e, talvez até explicasse a anterior. Qual foi sua surpresa quando a leu, e também não a entendeu. E leu de novo, e até mais vezes que tinha lido a anterior, até porque era inaceitável um governante de sua alçada não entender qual a finalidade daquele documento (ou de qualquer documento, certo?). E, com vergonha de demonstrar essa insegurança aos seus acompanhantes, ou subordinados (como preferirem), passou os olhos na carta procurando um trecho que lhe servisse de base para qualquer ação a ser tomada, e leu então:

"... e então, é de imprescindível necessidade que cortemos os laços com Portugal..."

E então, encheu o peito, e, procurando o que dizer àquelas pessoas (que estavam esperando ansiosamente a propósito), viu sua salvação. Percebeu que seus guardas usavam um lenço atravessado por cima da farda, no qual estampava (quase ostensivamente) o símbolo da bandeira de Portugal, e , como se num estalo, apontou para os seus guardas e disse:

- Guardas, eu , Sua Majestade, ordeno que vocês peguem suas facas e cortem seus laços com Portugal!

Então, sem entender muito do que faziam, cortaram seus laços e os deixaram lá mesmo no chão. E satisfeito com o que tinha feito, D.Pedro continuou sua viagem, admirando a paisagem, e, no fundo, se perguntando, por que cargas d'água José Bonifácio teria interrompido sua viagem, justamente às margens do rio Ipiranga, apenas para corrigir uma falha estética.

Loucura, não?!