sábado, 21 de abril de 2012

Alto-Mar

Sonho em alcançar o alto-mar,
acima o céu, à frente o chão.
E o fio do que pode ser o mar,
que me espera.
Que pede pra ser descoberto,
e inspira as mais belas canções do cais.
Que pede pra ser esquecido,
e expulsa de lá quem não o merece.
Que pede pra ser bajulado,
e pede pra ouvir as cantigas de amor.
Mar à frente, me pede uma canção,
mas eu não sei o que cantar pra ele.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Esfinges

Sabe, era disso que eu precisava,
esqueci do que é o mais simples, botei os versos simples no bolso e fui decifrar algumas esfinges,
e elas me devoraram.
Não, não sejamos tão dramáticos.
Mas foi por uma ponta,
Por um risco,
Por uma palavra mal dita,
Por outra mal entendida.

"Decifra-me que te devoro"

Não devia te dizer,
mas esse Amor,
mas esses versos simples,
me deixam comovido como o diabo!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011


  "Sabe, é preciso escrever o que se tem na alma."
Enfim...


segunda-feira, 3 de outubro de 2011

[3] Estou à Porta


    Eu não sei como cheguei aqui.
    Deixei o Chico a ver navios, e vim parar aqui. Devo ter entrado por uma porta. 
    Que importa? Eu "quase sempre nunca tanto" sei aonde vou parar. Como disse, não importa.
   O que importa são essas paredes, sujas, despedaçadas. Buracos de rato, fios desencapados, pintura gasta. Já houve algum resquício de pureza nelas. Algo de limpo, dava para perceber, alguém pode até dizer luxo. Agora restam apenas manchas de mofo, e uma espessa camada de poeira cobrindo a parede. Tinha até um papel de parede - um luxo! se dizia - vermelho clássico/tímido por trás daquela poeira toda. Papel de parede daqueles de hotel antigo, "O Iluminado" me vem à cabeça, lembra desse filme? Então. Papel de parede daqueles. 
   Curiosamente as luzes funcionavam perfeitamente. As "luzes" eram candelabros - já disse, luxuoso - de cristal, um a cada três metros aproximadamente. Enfim, nunca fui bom de medidas. As luzes funcionavam sem piscar, sem curtos-circuitos ou faíscas, mas estavam fracas. Fracas o suficiente pra não darem conta de iluminar cada canto daquele corredor. Eu já disse que era um corredor? Uma porta no começo e outra no final.
   Depois de certo tempo aquele corredor passou a me dar calafrios, e um pouco de medo também. Talvez claustrofobia, ele foi feito pra um homem só. Então me decidi a atravessar aquela porta no final do corredor longo e sujo. Dei uns vinte passos e cheguei na porta. Ela era alta, de madeira bem esculpida e branca. Maçaneta de ouro. Bem, pintada de ouro, com aquelas manchas pretas e tempo, sabe? Respirei fundo o ar pesado e empoeirado daquele lugar, peguei um punhado de coragem e girei a maçaneta. A maçaneta deu aquela estalada de quando não é aberta há muito tempo e a porta abriu rangendo.  
   Levei um susto! Do outro lado da porta havia mais corredor! O mesmo corredor! As mesmas manchas de mofo, os mesmos fios desencapados, o mesmo papel de parede vermelho gasto. E o mais impressionante, alguém de pé segurando a porta aberta do outro lado e olhando pra frente. "Ei, você!"- gritei e saí correndo. Mas o sujeito saiu correndo quase que no mesmo segundo que eu. Decidi continuar correndo atrás dele, que corria até no mesmo ritmo que eu, mas era inútil. Toda porta que eu atravessava me levava ao mesmo corredor, e o sujeito não parava de correr. Bem, se um não quer dois não brigam. Parei de correr. E o sujeito parou também, imediatamente. Olhei de longe, desconfiado. Dei dois passos para trás, ele também deu. Acenei o braço e ele também acenou. E agora então ficou óbvio, o sujeito era eu!
   Talvez por medo daquela aberração no espaço/tempo corri em direção à porta e a fechei. Fechei as duas. Era inútil tentar sair dali. Sentei no chão, pus a cabeça entre as pernas flexionadas e me pus à chorar. "Que desgraça! Ninguém merece tal maldição!". Chorei como uma criança e batia nas paredes daquele corredor suplicando uma saída, sendo ela qual for, e chamei por meu Pai. Nossa, como chamei meu Pai, clamava com toda a minha força e chutava aquelas paredes. E então sentei no chão, exausto. 
   Então, ouço batidas. No lado oposto ao que estava sentado. Batidas crescentes, primeiro fracas e ao longe, e então mais fortes. As batidas eram em uma porta. Uma porta! Como não tinha visto uma porta antes? E logo na minha frente. Essa era diferente, mais limpa. Era também de madeira, pintada de branco, esculpida, e uma maçaneta de ouro, ouro de verdade. Me levantei, enxuguei as lágrimas e fiquei em pé em frente à porta. O batido de novo, me dá um susto! Não havia mais nada a fazer além de abri-la.
   Girei a maçaneta, que não fazia barulho e abri a porta, que não rangia. Do outro lado vejo um homem de pé, com um sorriso, que me estende a mão. 
   - Bom dia, sou o novo morador deste quarto! 
   - Quarto? Mas isto é um corredor, meu senhor!- Mal acabo de dizer e me viro pra trás ainda apertando a mão dele. Era um quarto! Bom, agora era um quarto! 
   O corredor havia sido substituído por um quarto dos mais luxuosos! Pinturas pelas paredes e livros numa estante de madeira. Uma cama confortável, abajures, um candelabro daqueles do corredor. E aquele Papel de Parede vermelho clássico, agora limpo. Limpo ele brilhava, dava vida ao quarto, era como se fosse sangue, sangue de um Santo. Sangue de um santo que reformou o meu quarto. 
   Olhei de volta para aquele senhor que estampava um sorriso enorme no rosto. Ele entrou, fechou a porta - eu ainda sem palavras - e se deitou na cama, cruzou as pernas e pôs a mão por trás do pescoço.
   - Pode ir, deixa que eu cuido daqui - Me apontou o caminho da porta por onde entrou - Vamos, não perca tempo, seu Pai te aguarda.
   Pela cara daquele senhor, não adiantaria fazer qualquer pergunta, seria sempre uma resposta enigmática, pra me convencer a entrar por aquela porta. Então, fazer o que? 
   Abri a porta, botei meus fones de ouvido, e entrei por ela. Estava feliz, mas ainda tinha muito o que fazer!

"Eis que estou à porta, e bato;
Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta entrarei em sua casa..."
                                                                       [Ap 3:20]







sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Crônica Relâmpago

    Em 1982, Sinésio Bonfim se lançou candidato pelo então PSD à prefeitura do município baiano de Jaguaraquara. Seu slogan de campanha, inspirado nos Jogos Olímpicos, dizia "é ouro, prata e bronze!".
   Na noite de eleição, uma vez apuradas as urnas e constatada a derrota, a casa de Bonfim foi cercada por adversários, que se puseram a gritar:

   - E agora, Sinésio, é ouro, prata ou bronze?

   Durante horas ele suportou a provocação, até que, no meio da madrugada, não aguentou mais. Com uma arma na mão e atirando para o alto, saiu de casa gritando:

   - É chumbo!!!


(Não achei o link desse texto na internet, mas, por desencargo de consciência, escrevo que o surrupiei do meu livro de exercícios para o Enem)

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Crônicas da Terra dos Papagaios - Jovens e Revolucionários


   O ano é de 1922 e faz uma tarde linda de sol, daquelas pra se aproveitar nas praças, nos quadros de um modernista qualquer ou até na praia de Copacabana, para os mais sortudos.     
   
   - Realmente é uma bela tarde pra quem pode aproveitá-la! - Resmunga o Dr. Odranoel, Seu Noel para os íntimos, olhando pra janela e amaldiçoando aqueles que foram abençoados com umas horas a mais, para aproveitá-las na praia, com um violão, porque não?!
   
   Não tiro a razão do Seu Noel, a propósito, passar uma tarde de sábado num consultório do IML não é coisa que se peça, mas, são uns trocados a mais, que vinham muito a calhar naquela época. 
   Pega então os próximos "defuntos" a serem examinados. Suas fichas: Eduardo Gomes e Siqueira Campos. Reconheceu aqueles nomes. São dois daqueles jovens mortos na revolta dos "18 do Forte", uma tristeza. "Pobres rapazes" pensa Noel. "Pobres e revolucionários, a história da humanidade!". Talvez não literalmente pobres, afinal, estudavam na tão aclamada Escola Militar, eram a nata da sociedade, o "crème de la crème". Talvez por isso mesmo se sentiram na obrigação de ir às ruas reivindicar justiça. Justiça, educação e o tudo mais que o povo merece. Arrancá-los à força das mãos dos coronéis. 
  De repente a tarde não importa mais. Nem aquelas crianças que ele vê brincando pela janela que incomodavam tanto. O Odranoel dos velhos tempos era assim também. Jovem e revolucionário, quase um pleonasmo.

   "Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética" 

   As palavras do grande Che ecoavam na sua cabeça. Até ensaiou uma lágrima, mas não era daquilo. E a tarde de tão bonita não merecia uma lágrima. 
   Pois bem, era hora de fazer seu trabalho, dinheiro não dá em árvores!
  Com um certo respeito trouxe os sacos pretos com os corpos pra mesa de examinação, e os abriu. E, incrivelmente, aquele corpo, aquele defunto, se levantou do saco, respirando arduamente. 
   
   O defunto se levantou! Um morto se levantou! Seu Noel correu quase que involuntariamente pra fora da sala. Pra poder procurar alguém, nem que seja só pra contar que um morto ressuscitou. Ressuscitou nada! Eduardo tinha é uma cabeça mais "na frente" que todos aqueles outros jovens. De que adiantaria morrer naquela rua? Talvez até adiantasse se mais alguém tivesse pego em armas. Ele precisava viver, ele e seu amigo Siqueira. Que os chamassem de covardes, não se importavam. Eles precisavam levar a revolução adiante!
   Quase sem conseguir pensar, Eduardo levantou da mesa num salto, procurou o saco do amigo Siqueira, e o abriu. Talvez até comemorassem o sucesso do plano se tivessem tempo. Mas não tinham, e o Seu Noel, no medo, havia chamado a polícia. Depressa abriram a janela, e nus mesmo, saltaram por ela. Pra começar a revolução! Mas, antes, pra achar algumas roupas!
  Quando os policiais chegaram na sala, encontraram dois sacos vazios e a janela aberta. Reportaram imediatamente pro Coronel, ou General, ou Tenente (quem sou eu pra saber dessas coisas?). E começou então a caça aos revoltosos fujões.

   Incrível como na mesma tarde duas senhorinhas conversavam na porta de casa:
   - Josefa, cê ouviu o que aconteceu? 
   - Dos meninos que fugiram?
   - Pois é menina! Que coisa! Dois meninos fugiram da morte e enganaram o EXÉRCITO DO BRASIL (ela realmente enfatizou essas palavras) se deitando no chão e fingindo de morto, você acredita?
   - Ai ai, essas coisas, só no Brasil mesmo!





domingo, 21 de agosto de 2011

Um adeus disfarçado


Hoje o céu é uma nuvem só.
Fina chuva. Cinza. E só.
Talvez saudades. Não minhas. Tristeza sim.
Profunda. Poderia ser tanto!
Mas se foi.
E hoje o céu é uma nuvem só.
Talvez pra acomodar tanta festa!